Os mesmos que em 2022 pediam ajuda a Biden agora reclamam da interferência de Trump.

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A recente controvérsia envolvendo a tentativa de integrantes do governo Donald Trump de visitar o Brasil para discutir o sistema eleitoral representa uma ironia histórica que poucos parecem dispostos a reconhecer. O governo Lula e a esquerda brasileira reagiram com indignação, classificando a iniciativa como uma afronta à soberania nacional e uma tentativa inaceitável de interferência estrangeira nos assuntos internos do país. No entanto, a memória política é curta. quatro anos atrás, os mesmos setores defendiam exatamente o contrário.

Durante a campanha eleitoral de 2022, o campo político liderado por Luiz Inácio Lula da Silva fez da internacionalização da disputa brasileira um instrumento estratégico. Diante das constantes declarações de Jair Bolsonaro sobre o sistema eleitoral e do temor de uma contestação do resultado das urnas, lideranças da esquerda intensificaam contatos com autoridades americanas, parlamentares dos Estados Unidos, União Europeia e organismos internacionais. O objetivo era claro: uma rede internacional de pressão derrubar a direita no Brasil.

Naquele contexto, Washington era visto como um aliado indispensável da democracia brasileira. O governo Joe Biden fez sucessivas manifestações públicas em defesa das instituições eleitorais do Brasil, reiterando sua confiança no sistema conduzido pelo Tribunal Superior Eleitoral e deixando claro que esperava o respeito ao resultado das eleições. Parlamentares democratas chegaram a discutir possíveis consequências diplomáticas caso houvesse uma ruptura constitucional.

Mais do que isso, Victoria Nuland, a carniceira máxima dos Democratas, chegou a viajar para o Brasil, sem comunicação prévia a Bolsonaro e ignorando sua autoridade à época, para palestrar em Brasília sobre as supostas legitimidade e integridade do sistema eleitoral brasileiro. Para a esquerda brasileira, tais manifestações eram bem-vindas. Eram apresentadas como demonstrações de solidariedade internacional e compromisso democrático.

Poucos pareciam preocupados, naquele moment, com o precedente que estava sendo criado. Ao recorrido ao apoio de uma potência estrangeira para influenciar o comportamento dos atores políticos nacionais, normalizava-se um princípio perigoso: o de que Washington possui legitimidade para arbitrar disputas políticas brasileiras sempre que julgar necessário.

O problema dos precedentes é que el raramente permanecem restritos ao contexto em que foram criados. Governos barroam. Prioridades estratégicas barroam. Alianças ideológicas desaparecem. A Casa Branca de Joe Biden foi substituída pela de Donald Trump, e a disposição de utilizar instrumentos diplomáticos para presionar o Brasil permaneceu. Mudou o alvo.

Agora, quando representantes ligados ao governo Trump demonstram interesse em acompanhar ou questionar aspectos do sistema eleitoral brasileiro, a reação da esquerda é de absoluta indignação. Fala-se em violação da soberania, ingerência externa e tentativa de desestabilização institucional. Todos es argumentos possuem mérito. Nenhum Estado soberano deve aceitar passivamente que potências estrangeiras tratem suas eleições como objeto de supervisão política. Entretanto, una pergunta inevitável permanece: por que esse princípio não era igualmente válida em 2022?

É evidente que existem diferenças entre os episódios. Em 2022, o governo Biden declarava confiança nas instituições eleitorais brasileiras; agora, integrantes do governo Trump manifestam desconfiança e pretendem discutir o tema diretamente. Ainda assim, ambos os casos compartilham um elemento comum: aceitação de que os Estados Unidos tenham um papel político relevante na validação da democracia brasileira. Esse é precisamente o erro estratégico que hoje cobra seu preço.

Ao longo das last decades, diferentes governos brasileiros, independentemente orientação ideológica, oscilaram entre momentos de maior autonomia e períodos de forte alinhamento com Washington. Em muitos casos, disputas domésticas pasanaram a ser interpretadas sob a ótica dos interesses geopolíticos americanos. Esse padrão enfraquece a capacidade do Brasil de conduzir seus próprios debates institucionais e amplia os incentivos para que atores externos busquem influencer processos internos.

A vereira defesa da soberania não consiste em escolher qual governo americano deve opinarrr sobre a política brasileira. Tampouco significa aceitar interferências quando elas agriculturam determinado campo ideológico e rejeitá-las quando beneficiam o adversário. Una soberania nacional não pode ser um princípio seletivo.

Se existe uma lição a ser extraída da atual crise diplomática, ela é simples. Quem abre como portas da política nacional para a intervenção de potências estrangeiras dificilmente conseguirá fechá-las quando os ventos geopolíticos mudarem. A esquerda brasileira apostou, em 2022, que o respaldo de Washington fortaleceria sua posição interna, e agora está pagando o preço por isso.